Capitulo 04 – Da Idade da Trevas surgiu uma luz ao homem.

Iniciou-se a Idade das Trevas. Além do esfriamento espiritual e a estagnação da Igreja, esse período coincidiu-se logicamente com o declínio do Império Romano. Os mosteiros que sempre prestaram relevantes serviços, dentre outros, tiveram a grande missão de conservar a cultura antiga e de na medida em que o Império Romano decaía, acabaram  assumindo muitas funções. Na decadência de 692 até 1303 os povos germânicos e eslavos até chegaram a conhecer minimamente o cristianismo, mas as coisas já não estavam muito bem para Roma.

A chamada de alta idade média tem como fatos mais marcantes a expansão do feudalismo e claro o cisma grego ocorrido em 1054. A baixa idade média que tem início em 1073, desde o começo do pontificado do Papa Gregório VII até a morte de Papa Bonifácio VIII em 1303,  foi quando a influência da Igreja nos acontecimentos sociais, cultura, trabalho e política, aumentou ainda mais, pois Bonififácio foi um dos defensores da reforma gregoniana que fortalecia o papel dos papas perante dos reis da Europa.

Quem era cristão neste tempo, praticamente eram os ricos. O campesinato e os pobres eram seus trabalhadores que pagavam impostos à essa nobreza. O sistema desigual fazia com que de fato, neste período que a Igreja sofresse interferências políticas do clero Europeu, os senhores feudais já muito bem estruturados, querendo ou não ditavam as regras ao Papa e aos líderes das igrejas, e isso só aumentava com cultura da agricultura europeia.  Um período negro onde o Cristianismo sofreu ingerências dos senhores feudais, e que levou a vida eclesiástica a sofrer uma decadência moral.

 REFORMA GREGONIANA

A Reforma Gregoriana estabeleceu o poder dos papas sobre o poder temporal, dos reis. Em decorrência da reforma, todos os homens ficaram submissos ao papa, o qual tinha o poder sobre qualquer ser vivente representando a palavra de Deus. Os papas passavam a ser inferiores apenas ao próprio Deus. A Igreja Católica ganhava então um poder ilimitado. A Reforma Gregoriana é considerada ainda a primeira grande revolução européia por conta do enfrentamento gerado contra o poder temporal. Tem sua autoria em São Gregório Magno I, foi ele que apresentou as formulações iniciais que criariam a infalibilidade papal e a supremacia da Igreja Católica. As medidas propostas por Gregório Magno começaram a ser implementadas sob o papado de Leão IX entre os anos de 1049 e 1054.

Neste momento um jovem diácono chamado Hildebrando da Toscãnia despontava dentre a cristandade, tornando-se uma figura muito evidente no papado. Hildebrando conquistou muita visibilidade por conta de sua defesa pelos elementos da reforma na Igreja e da natureza do poder atribuído ao papa, tanto que quando se tornou papa Gregório VII entre 1073 e 1085 foi identificado como um dos mentores da Reforma Gregoriana.O objetivo da Reforma Gregoriana era fazer com que a Igreja e a cristandade voltassem aos tempos de Cristo, época primitiva do cristianismo marcada pelos Apóstolos. Mas por outro lado os fins da reforma visou estabelecer o poder do papa sobre o poder feudal.

Mesmo com uma moralidade em decadência perante aos princípios e valores instituídos por Jesus Cristo, os anos seguintes seriam marcados ainda mais pela ascensão do poderio Papal, enriquecimento da Igreja Católica através desta “relação institucional”, bem como pela a ascensão da Inquisição (Instituições dedicadas à supressão da heresia no seio da Igreja Católica), e não podemos esquecer que o Concílio de Latrão determinou um prazo menor na venda de Indulgências, elas valiam agora apenas cerca de 40 dias.

O AUTO DE FÉ

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Auto de Fé

O Auto de fé era a cerimônia em que os réus eram obrigados a participar, antes de sua condenação. Era iniciado com um sermão e, logo depois, os réus tinham que pedir perdão por seus crimes sem direito à defesa. Em seguida, caminhavam em direção a um pátio, ladeados por expectadores de todas as partes do reino. Primeiro iam os réus que se salvaram da fogueira. Em suas roupas havia a pintura de uma chama de cabeça para baixo. Depois iam os réus condenados à fogueira. A pintura era de uma chama de ponta para cima (ilustrando o que lhes esperava). Por último iam os ditos hereges, réus que não aceitaram a salvação de suas almas ou que, por conta da gravidade de seus crimes, não receberam o perdão. Em suas vestes havia ilustrações de chamas, cobras e demônios. A cerimônia se encerrava nas chamas da fogueira. Os expectadores, em sua maioria, vibravam.

Realmente era a idade das trevas e até o século XII não se houve falar mais de milagres, sinais, maravilhas e prodígios antes proclamados e realizados por Jesus aos seus discípulos. Em Éfeso (hoje Turquia), por exemplo, tínhamos uma igreja com mais de 200 mil membros quando o Apóstolo Paulo, levou a fé cristã até lá. Na Idade Média esse número ruiu com a entrada de outras doutrinas e religiões pagãs por lá. Hoje a Turquia tem 98% da população muçulmana “praticante”, o restante da população não muçulmana (entre 0,2% e 1%) é cristã.

O RISCAR DO FÓSFORO

Mas em 1320, na Inglaterra de uma família era tradicional na região de Yorkshire,  nasce John Wycliffe, nas redondezas de Ipreswell (hoje Hipswell). Ele aplicou-se nos estudos de teologia, filosofia e legislação canônica. Tornou-se sacerdote e depois serviu como professor no Balliol College, ainda em Oxford. Por volta de 1365 tornou-se bacharel em teologia e, em 1372, doutor em teologia. Como teólogo, logo destacou-se pela firme defesa dos interesses nacionais contra as demandas do papado, ganhando reputação de patriota e reformista. Wycliffe afirmava que havia um grande contraste entre o que a Igreja era e o que deveria ser, por isso defendia reformas. Suas idéias apontavam a incompatibilidade entre várias normas do clero e os ensinos de Jesus e seus apóstolos.

Uma destas incompatibilidades era a questão das propriedades e da riqueza do clero. Wycliffe queria o retorno da Igreja à primitiva pobreza dos tempos dos evangelistas, algo que, na sua visão, era incompatível com o poder temporal do papa e dos cardeais. Para ele o Estado deveria tomar posse de todas as propriedades da Igreja e encarregar-se diretamente do sustento do clero.

Logo, a cátedra deixou de ser o único meio de propagação de suas idéias, ao iniciar a escrita de seu trabalho mais importante, a Summa theologiae. Entre as idéias mais revolucionárias desta obra, está a afirmação de que, nos assuntos de ordem material, o rei está acima do papa e que a Igreja deveria renunciar a qualquer tipo de poder temporal. Sua obra seguinte, De civili dominio, aprofunda as críticas ao Papado de Avinhão (onde esteve a sede provisória da Igreja de 1309 até 1377), com seu sistema de venda de indulgências e a vida perdulária e luxuosa de muitos padres, bispos e religiosos sustentados com dinheiro do povo.

Wycliffe defendia que era tarefa do Estado lutar contra o que considerava abusos do papado. A obra contém 18 teses, que vieram a público em Oxford em 1376. Suas idéias espalharam-se com grande rapidez, em parte pelos interesses da nobreza em confiscar os bens então em poder da igreja. Wycliffe pregava nas igrejas em Londres e sua mensagem era bem recebida.

A PRIMEIRA BÍBLIA INGLESA

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John Wycliffe entrega a tradução da Bíblia aos padres, que ficaram conhecidos como lolardos. (quadro de William Frederick Yeames).

Wyclif organizou um projeto de tradução das Escrituras, defendendo que a Bíblia deveria ser a base de toda a doutrina da Igreja e a única norma da fé cristã. Sustentava que o papa ou os cardeais não possuíam autoridade para condenar suas 18 teses, pois Cristo é a cabeça da Igreja e não os papas.

“A verdadeira autoridade emana da Biblia, que contém o suficiente para governar o mundo”, cita Wycliffe em seu livro. Wycliffe afirmava que na Bíblia se encontra a verdade, a fonte fundamental do Cristianismo e que, por isso, sem o conhecimento da Bíblia não haveria paz na Igreja e na sociedade. Com isso, contrapunha a autoridade das escrituras à autoridade papal: “Enquanto temos muitos papas e centenas de cardeais, suas palavras só podem ser consideradas se estiverem de acordo com a Bíblia”.

Durante a Idade Média os livros eram raros e caros por serem feitos à mão, a Bíblia não era exceção. O uso exclusivo do Latim era comum a todos os livros dado a universalidade da língua e o seu reconhcimento erudito e intelectual na Europa Ocidental, regra válida também para a Bíblia. A tradução de Wycliffe da Bíblia para o inglês pode ser entendida como mais movida pelo nacionalismo inglês e menos por uma inclinação popular de democratização de acesso. Os pobres continuaram sem ter acesso a mesma por dois motivos: o primeiro é que era cara por sua confecção ainda manual e segundo o povo continuava analfabeto. A grande difusão da Bíblia só foi de fato possível com a invenção da imprensa no século XV e a universalização da educação a partir do século XIX. Então, somente após o século XIX reuniram-se as condições para a Bíblia se tornar um livro popular.

Apesar do empenho da hierarquia eclesiástica em destruir as traduções em razão do que consideravam como erros de tradução e comentários equivocados, ainda existem ao redor de 150 manuscritos, parciais ou completos, contendo a tradução em sua forma revisada. Disso podemos inferir o quão difundida essa tradução foi no século XV, razão pela qual os partidários de Wyclif eram chamados de “homens da Bíblia” por seus críticos.

Em meados de 1381 uma insurreição social amedrontou os grandes proprietários ingleses e o rei Ricardo II foi levado a crer que os lolardos haviam contribuído com ela. Ele ordenou à Universidade de Oxford (que havia sido reduto de líderes insurretos) que expulsasse Wyclif e seus seguidores, apesar destes não haverem apoiado qualquer movimento rebelde. O rei proibiu a citação dos ensinos de Wycliffe em sermões e mesmo em discussões acadêmicas, sob pena de prisão para os infratores.

Wycliffe então se retirou para sua casa em Lutterworth, onde reuniu sábios que o auxiliaram na tarefa de traduzir a Bíblia do latim para o inglês. Enquanto assistia à missa em Lutterworth, no dia 28 de dezembro de 1384, foi acometido por um ataque de apoplexia, falecendo 3 dias depois, no último dia do ano. Não se sabe, ainda, o ano em que ele foi enviado pela família para estudar na Universidade de Oxford, mas há certeza de que estava lá desde pelo menos 1345.

UMA VOZ: MENINO DO GANSO

Perfil: Jan Hus

Perfil: Jan Hus

Até que na Europa, em 1349 em uma pequena cidade da Alemanha, nasce Jan Huss, criado aos pés do catolicismo, o rapaz assume uma igreja e começa a pregar contra o pecado, e contra o esfriamento da Igreja e a fé começa a ressurgir novamente. Ele começa a pregar contra a inspiração da maligna na igreja. O pai dele criava gansos para as festas cristãs. E sob a influência das ideias de John Wycliffe Huss se tornou um grande pregador.  Mas infelizmente foi condenado por heresia e executado em uma fogueira no dia 6 de julho de 1415. Algumas de suas ideias mais radicais foram:

– Ser membro da Igreja hierárquica não é garantia de ser membro da verdadeira Igreja. Somente aqueles que foram predestinados por Deus antes da fundação do mundo são membros da verdadeira Igreja.

– Cristo somente e não o papa é o Cabeça da Igreja.

– Oposição às indulgências.

– Somente a Bíblia é a regra de fé e prática.

Um dos que estavam presentes na execução de Jan Huss foi o sacerdote católico romano Poggius Florentini, também conhecido com Poggius o papista. Ele foi o legado do papa que entregou a intimação para que Jan Huss comparessesse ao Concílio de Constança e depois participou do concílio como um membro votante. Foi neste concílio que Jan Huss foi condenado a morte. Depois da execução, Poggius escreveu para seu amigo Leonhard Nikolai duas cartas, que sobrevivem até hoje, contendo uma descrição detalhada no julgamento e morte de Jan Huss.

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Preparação da Execução de Jan Huss (1415)

Um relato importante desta carta foram as últimas palavras de Jan Huss antes de morrer:

“Ele chegou até a estaca olhando para ela sem medo. Ele subiu nela depois que dois assistentes do carrasco haviam rasgado suas roupas… Naquele momento, um dos eleitores, o príncipe Ludwig do Palatinado, subiu e implorou que Huss voltasse atrás, para que fosse poupado da morte nas chamas. Mas Hus respondeu: ‘Hoje vocês assarão um ganso magro, mas em cem anos ouvirão um cisne cantar. Não serão capazes de assá-lo e nenhuma armadilha ou rede poderá segurá-lo’. O princípe voltou cheio de pena e muita admiração”.

O nome “Huss” significa ganso. Isso aconteceu em 1415. E esta profecia se cumpriria com o nascimento de Martinho Lutero.

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