Capítulo 06 – DOUTOR LUTERO E A “ÚNICA” TESE DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ.

DOUTOR LUTERO                    

Martinho Lutero (1483 - 1546)

Martinho Lutero (1483 – 1546)

Em 1511, o Superior da Ordem Agostiniana na Alemanha, Johann von Staupitz, afirmou à Lutero que ele deveria se preparar para função de Doutor em teologia na Alemanha. Noventa e sete anos depois da morte de Jan Huss, foi em 1512, o ano em que Martinho Lutero foi recebido no Senado da Faculdade Teológica com o título de Doutor em Bíblia. E 1515, exatamente cem anos depois da morte de Jan Huss,  Lutero começou a lecionar sobre a Epístola aos Romanos. Foi ai que, segundo seu próprio relato, ele foi convencido da justificação pela fé com base em Romanos 1.17, este acontecimento acabaria desencadeando a Reforma Protestante. Diante disso, Martinho Lutero acreditava que as palavras de Jan Huss foram uma previsão que se cumpriu nele. Ele escreveu sobre isso ao comentar um Edito Imperial promulgado em 1531:

Eu, Dr. Martinho, fui chamado para esse ofício e fui compelido a me tornar um doutor, sem qualquer iniciativa minha, mas por pura obediência. Então eu tive que aceitar o ofício de doutor e fazer um juramento de que eu pregaria e ensinaria com fidelidade a minha tão amada Sagrada Escritura. Enquanto eu estava engajado no ensino, o papado cruzou meu caminho e queria me impedir… Mas não me impedirá. No nome e na vocação de Deus, eu andarei sobre o leão e sobre a víbora e pisarei com meus pés no filhote de leão e no dragão. E isso que começou durante a minha vida se completará após minha morte. São Jan Huss profetizou de mim… ‘Assarão um ganso agora (porque “Huss” significa “ganso”), mas em cem anos ouvirão um cisne cantar e terão que aguentá-lo’. E assim será, se Deus quiser”. (Lutherʹs Works, Volume 34, p. 103).

Aparentemente, não era somente ele que se via como o cumprimento do oráculo de Jan Huss. Isso chegou a ser mencionado pelo Rev. Johann Bugenhagen no sermão de seu funeral:

“Mas em meio à tristeza”, devemos reconhecer também a graça e misericórdia de Deus conosco e agradecê-lo por ter acordado por seu Espírito o querido Dr. Martinho Lutero para ir contra as doutrinas anticristãs do abominável e satânico papa e contra as doutrinas do diabo somente cem anos depois da morte do santo Jan Huss (que foi morto pela verdade em 1415), como o próprio Jan Huss profetizou antes de sua morte de um cisne futuro. Huss significa “ganso” na língua boêmia. ‘Vocês estão assando um ganso’, disse Huss, ‘mas Deus levantará um cisne que vocês não queimarão ou assarão’. Até que temendo uma revolta o Vaticano o condenou como contei no capítulo 04 desta série.

Bom, expor a doutrinação da justificação pela fé, foi  realmente o objetivo central de Martinho Lutero neste momento. Mas, neste tempo um monge romano chamado Johann Tetzel; embalava suas vendas de indulgências a fim de construir o templo da Igreja Católica “Apostólica” Romana a mando do Papa Leão X. Tetzel chegou na Alemanha e pregando dizia:

“Não vale a pena atormentar-te podes resgatar teus pecados com dinheiro! Pagando, podes escapar dos sofrimentos do purgatório e aliviar dos outros!”

Tetzel autorizado pelo Papa, levanta recursos para a construção da Basília de S.Pedro em Roma.

Tetzel autorizado pelo Papa, levanta recursos para a construção da Basília de S.Pedro em Roma.

Desde o primeiro século, os Papas já concediam aos cristãos indulgências que na Idade Média se intensificarão para reduzir as penitências [atos que provam que os mesmos estão arrependidos de seus pecados como jejuns, orações, peregrinações, etc]. Infelizmente até hoje os documentos são espedidos por meio das bulas papais, mas somente às indulgencias plenárias, sem que haja qualquer cobrança nenhum valor aos fiéis.

“Quando homem desvirtua o caminho criado pelo próprio Deus, que se fez carne em Jesus Cristo; imediatamente o Espírito Santo do Senhor, que também é uma pessoa na trindade, é o maior ator que protagoniza, neste momento, uma grande reviravolta na história do próprio homem.”

As palavras de Tetzel indignavam à muitos Alemães que já não aguentavam mais ter que pagar milhares de impostos por causa de Roma, e Lutero era foi o seu principal opositor. Todos os cristãos e cidadãos da Europa que já vinham sofrendo influências de homens como Agostinho, John Wyllians e até Jan Huss há 100 anos passados daquela época, viram na atitude, que descreverei agora que Martinho Lutero teria um das maiores manifestações do Espírito Santo de Deus sobre a Igreja dele, desde a subida de Jesus nos céus antes mesmo de Paulo. Foi um divisor de águas para os cristãos até o século XXI.

 95 RAZÕES PARA VIVER SOMENTE DA PALAVRA DA VERDADE

95 Teses de Lutero.

95 Teses de Lutero.

Na manhã de 31 de outubro de 1517, bem no dia em que a Igreja Católica Apostólica Romana relembrava os santos em todo o mundo, que morrerão nas mãos tanto do próprio império romano com Diocleciano, quanto nas mãos dos antigos cristãos perseguidos no Egito na escravidão do povo de Israel, e enquanto Frederico, o Príncipe Eleitor da Saxônia,  vendia cerca de 17 mil relíquias, as quais valiam aos fieis cristãos cerca de 27 779 anos em indulgências, Martinho Lutero pregou 95 Teses que propõem a reformulação de doutrinas teológicas da Igreja Católica.

Para alegria de muitos, Lutero estava fazendo o que ninguém poderia fazer. Ele como Doutor em Teologia e um padre que havia participado assiduamente do seminário sabia e estava convicto, pois diferentemente de todos em 1517, Lutero tinha na época acesso aos livros sagrados, ele podia ler a Bíblia e sabia das palavras que o próprio Paulo havia escrito quando dizia aos Romanos:

“O salário do pecado é a morte. Mas o dom GRATUITO de Deus é vida eterna, por meio de Jesus Cristo”.

Martinho Lutero afixou na porta da capela de Wittemberg 95 teses para debate.

Martinho Lutero afixou na porta da capela de Wittemberg 95 teses para debate.

A palavra da verdade foi manuseada corretamente, e Lutero que se pôs aprovado diante de Deus, para que de nada tivesse envergonha em suas falas e atitudes, realmente proporcionou aos cristãos, judeus, europeus, africanos, asiáticos e até os  americanos (que estavam sendo descobertos por Cristóvão Colombo) o real conhecimento da doutrina da Justificação pela fé em Jesus Cristo. E combater atitudes que envergonhavam a igreja de Jesus na época, somente por poder, dinheiro e influências malignas foi o seu  maior objetivo. A Europa que ainda vivia em sistemas feudais e com diversos reinos esta prestes a mudar gradualmente com tudo o que Lutero propunha.

 NO BRASIL EM 1500

Anos antes de Lutero tomar essa incrível atitude na Alemanhã em 1517, Portugual que havia descoberto o nosso Brasil em 1500 trouxe também sua fé. A primeira missa também foi um marco para o inicio da história do Brasil. No dia 22 de abril de 1500 chegaram as 13 caravelas lideradas por Pedro Alvares Cabral. Ao avistar um monte do mar, chamou de Monte Pascoal já que era o oitavo dia da Páscoa. Ao desembarcarem foram recebidos por aproximadamente dezoito índios e trocaram presentes. A bordo de suas caravelas novamente, subiram um pouco para um lugar mais protegido e foram parar na praia da Coroa Vermelha, em Porto Seguro, no litoral sul da Bahia.

Foi exatamente ali que foi celebrada a primeira missa em solo brasileiro, no dia 26 de abril. Segundo narra o escrivão Pero Vaz de Caminha em uma carta para o rei de Portugal, D. Manuel, depois 47 dias navegando pelo oceano Atlântico, ao chegarem na praia da Coroa Vermelha, dois carpinteiros fizeram uma cruz e a colocaram na areia. A missa foi celebrada pelo Frei Henrique com mais alguns clérigos. Foram convocados mil homens, entre oficiais e marinheiros e havia cerca de duzentos índios que acompanhavam atentamente ao que acontecia, com muito respeito e adoração. Os índios seguiam os mesmos gestos dos portugueses, se eles levantavam, eles também levantavam, se eles ajoelhavam, eles também ajoelhavam. Depois de terminada a cerimônia o sacerdote fez uma pregação narrando a vinda dos portugueses. Vaz de Caminha acreditava também que a conversão dos índios não seria difícil, já que eles foram muito respeitosos quanto a religião.

Nos dias seguintes, os portugueses tentaram mostrar para os índios o respeito que tinham com a cruz, se ajoelharam um por um e a beijaram. Alguns índios fizeram o mesmo gesto, o que fez com que fossem considerados inocentes e fáceis de evangelizar. Vaz de Caminha pede ainda para o rei que venha logo o clérigo para batizá-los a fim de conhecerem mais sobre a fé deles.

A segunda missa foi celebrada no dia 1º de maio, na foz do rio Mutarí. E assim, deu-se início ao que hoje é considerado o maior país cristão do mundo. A primeira igreja do Brasil teria sido erguida, em Taipa, pelos dois frades franciscanos que chegaram em Porto Seguro, em uma das expedições de Gonçalo Coelho, em 1501 ou 1503.Eles integraram o primeiro povoado do Brasil com a participação de europeus. Era a Igreja de São Francisco de Assis do Outeiro da Glória. Essa igreja teria sido construída por volta de 1503, destruía em 1505.

Considera-se que Igreja Católica “Apostólica” Romana chegou às Américas a partir de 1532, durante a expedição de Martim Afonso de Sousa, que fundou a vila de São Vicente.  Exatos 493 anos depois, do dia 31 de outubro de 1517, data da atitude de Martinho Lutero na Alemanha, aqui no Brasil a nossa Dilma Rousseff era eleita como a primeira mulher presidenta da república em uma nação com 64,6% da população seguindo o catolicismo romano (Graças aos Jesuítas); 22,2% o protestantismo; 2,0% o espiritismo, 2,7% outras denominações cristãs e islâmicas, budistas, judaicas e religiões ameríndias; 0,3% religiões afro-brasileiras e com 0,1% de outras religiões, não declaradas enquanto de 8,0% não têm religião segundo o IBGE de 2010.

A primeira "missa" no Brasil por Meirelles, Victor (1832 - 1903)

A primeira “missa” no Brasil. Por Victor Meirelles (1832 – 1903)

INFLUÊNCIAS TEOLÓGICAS, POLÍTICAS E SÓCIO-CULTURAIS DE LUTERO

É interessante analisar a história da igreja e ver como o Espírito Santo de Deus agiu para que Lutero tivesse sucesso em suas 95 afirmações. Lutero em suas Teses não estava criticando somente a venda de indulgências e sim a base da doutrinação teológica, bem como rituais e profundos de sacramentos da igreja. Era um momento muito sério para a cúpula do Vaticano, provocado pelo doutor alemão do monastério agostiniano. Faço questão de aqui nesta história fixar para que todos possam ler todas as 95 Teses do “Protestantismo” assim afirmadas por pensadores depois de Lutero:

1 Ao dizer: “Fazei penitência”, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2 Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3 No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4 Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5 O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6 O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.

7 Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8 Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9 Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10 Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos, penitências canônicas para o purgatório.

11 Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12 Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13 Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14 Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.

15 Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16 Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semi- desespero e a segurança.

17 Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.

18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

20 Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22 Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25 O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26 O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27 Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28 Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29 E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

30 Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31 Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.

34 Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35 Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.

36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

37 Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38 Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.

39 Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.

40 A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.

41 Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.

42 Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43 Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

44 Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45 Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46 Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47 Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48 Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

49 Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50 Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51 Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52 Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53 São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54 Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55 A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

56 Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57 É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58 Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

59 S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60 É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.

61 Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.

62 O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63 Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.

64 Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.

65 Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

66 Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67 As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.

68 Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.

69 Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

70 Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.

71 Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

72 Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

73 Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,

74 muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.

75 A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76 Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.

77 A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.

78 Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.

79 É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.

80 Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.

81 Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.

82 Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

83 Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84 Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?

85 Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

86 Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87 Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?

88 Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89 Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

90 Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91 Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92 Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: “Paz, paz!” sem que haja paz!

93 Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!

94 Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

95 e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.

Neste mesmo ano, terminou o 5º Concílio de Latrão, que em março de 1517 havia definido questões sobre a imortalidade da alma, condenado uma pragmática que exigia que a Igreja católica elegessem os cargos eclesiásticos por eleições diretas, e afirmou um amplo acordo com a França.

 Quinto Concílio de Latrão

Concílio de Latrão

Influenciados pelas ideias de Martin Lutero, após diversos acontecimentos, em junho de 1518 foi aberto um processo  por parte da Igreja Romana contra Lutero, a partir da publicação das suas 95 Teses. Alegava-se, com o exame do processo, que ele incorria em heresia. Depois disso, em agosto de 1518, o processo foi alterado para heresia notória. Finalmente, em junho de 1520 reapareceu a ameaça no escrito “Exsurge Domini” e, em janeiro de 1521, a bula “Decet Romanum Pontificem” excomungou Lutero.

EXÍLIO DE LUTERO

Devido à todos esses acontecimentos, Lutero foi exilado no Castelo de Wartburg, em Eisenach, onde permaneceu por cerca de um ano. Ele foi protegido e sequestrado antes que Roma o matasse, pelo  Príncipe-eleitor da Saxónia, Frederico III. Durante esse período de retiro forçado, Lutero trabalhou na sua tradução da Bíblia para o alemão, da qual foi impresso o Novo Testamento, em setembro de 1522 por intermédio de Gutenberg ( o cruador da imprensa) se tornou o primeiro livro publicado da antiga Europa, e se espalhou por todo o continente muito rapidamente sem o controle de Roma. No próximo capítulo veremos o desenrolar dessa história que mudou o rumo do mundo todo. Mas devido as férias voltarei somente em Janeiro.

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